O quê vem depois da curva?
Há 17 anos, transito pela BR101, entre a Bahia e o Espírito Santo. Sempre encontro surpresas nessa jornada de 1200 quilômetros. Da última vez, em julho de 2023, no retorno para a capital baiana, nas imediações de Ibiaçu, o inesperado surgiu após uma curva: um engarrafamento me levou a reduzir abruptamente a velocidade e parar. Imaginei a diminuição do espaço de frenagem a cada carro subsequente. Então, para preservar a minha traseira, resolvi estacionar no acostamento. Dito e feito. Segundos depois, o segundo motorista fez gritar os pneus no asfalto molhado e o terceiro foi parar na contramão, para não colidir. Intuitivamente, me ocorreu a ideia de que uma carreta não teria espaço para frear. Um ímpeto arrancou-me do carro para correr pelo acostamento em direção à curva com os braços tremulando alertando o perigo. Corridos os 100 metros a lá Bolt, apareceu o grande monstro. Ele começou a frear ao meu sinal, antes de completar a curva. Eu pude sentir todo o poder na minha mão, domando aquele animal de dimensões dinossáuricas numa rodovia federal. Então, lembrei que minha família estava logo depois. Pedi a Deus para segurar o resto do bicho, pois eu já tinha que frear os outros na sequência. Assim aflorou o herói. Mas ninguém testemunhou o trabalho de Hércules, pois nada sai no jornal sem uma imagem ou manchete impactante. O quê dizer de algumas vidas preservadas em uma estrada qualquer do Nordeste? O anjo anônimo apenas se regozijou com a oportunidade de salvar a própria família. A sua esposa charmosa continuou a assistir ao seu dorama, sem ter percebido o drama que se passava pela janela. Ainda sem mensurar o tamanho da tragédia evitada, narrei ao meu filho o que tinha deixado de acontecer. Ele começou a filosofar sobre Inteligência Artificial e decisões complexas. No futuro, todas as coisas estarão conectadas e o carro inteligente saberá o que vem após a curva. Ou talvez as curvas desapareçam e tudo será programado em linha reta. Assim, Deus não precisará existir ou enviar intuições certas por linhas tortas. Sem saber o que vem após a próxima curva do tempo, os querubins vão perdendo seus empregos para os algoritmos. Triste fim da inspiração do escritor analógico, domador de caminhões, que vive de textos anacrônicos, frutos de um mundo obsoleto, demasiadamente humano e cheio de curvas.
Salvador-Ba