Palestra realizada no Teatro UNEB, Salvador-Ba (31/08/2022)

O Feminino e a Saúde Mental

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

Professor Titular de Psicologia - UNEB

pwmoraes@uneb.br

"Quem irá segurar esse seio para mim? " (Lambert,1996, p. 196)

O conceito de saúde mental é bastante amplo e envolve muitas dimensões da vida humana. A armadilha da linguagem é o primeiro obstáculo epistemológico (Bachelard, 2003) a vencer para entender a ideia por trás da palavra: saúde não é uma coisa, nem um estado, é um processo dinâmico. Nem do ponto de vista físico, nem do social ou nem mesmo do psíquico é possível encontrar algum estado de perfeito equilíbrio (Dejours et al., 1993). A vida é caracterizada pela manutenção de um equilíbrio dinâmico no qual a saúde emerge da contínua compensação para manter patamares aceitáveis de variação, seja dos aspectos fisiológicos, sociais ou psicológicos. Tais patamares variam amplamente de pessoa para pessoa e cada uma precisa de autonomia para controlar suas necessidades. Não seria, portanto, a ausência de conflito ou problemas que produz saúde, mas a capacidade de lidar com os desafios que caracteriza a força necessária para preservar a saúde mental.

Alguns indivíduos até buscam desafios como fonte de estimulação que ativam a mente e o corpo. Ao superar algum desequilíbrio resultante de uma escolha realizada, encontra-se um prazer relacionado com a sensação de ser capaz de transformar uma situação e controlar as adversidades. Mas cada um deve conhecer o seu “grau de estimulação”, no qual suporta enfrentar os desequilíbrios que a vida impõe. Com o amadurecimento psicológico, aumentamos nossos recursos e habilidades e esse potencial de suportar as mudanças também cresce. Algumas vezes, se desconhece esse potencial e muitas oportunidades são perdidas. O desenvolvimento pode ser retardado num estado de passividade ou estabilidade monótona, devido ao medo excessivo de apertar a corda demais e ela se partir.

 

O budismo ensina o caminho do meio: se uma corda de um instrumento é apertada demasiadamente, uma hora ela vai partir. Se a corda permanece frouxa demais, o instrumento não afina e a plenitude melódica da música não pode ser alcançada. Afinar um instrumento é encontrar um ponto de equilíbrio. No canto, recomenda-se conhecer o próprio timbre, encontrar a própria extensão vocal na qual a música pode ser cantada da melhor maneira possível e aprender o ritmo adequado de cada canção. Mas quando a pessoa não está bem e não consegue respirar direito, não há técnica que ajude. Assim também é na vida: busca-se afinar os instrumentos para viver e a manutenção da harmonia só acontece se houver cuidado consigo próprio, afinar a si próprio naquele ponto em que nem aperta demais e nem tem frouxidão.

 

Pensar nesse ponto ideal quando se falar do feminino é lembrar que a beleza funciona como a música e seus instrumentos: não podemos apertar demais as cordas. A busca pela beleza física tornou-se uma obsessão que aprisiona um tanto de pessoa e faz a corda partir em algum momento da existência. A velhice e a doença são alertas de que a beleza física é passageira e, muitas vezes, não passa de alguém tentando apertar demais a corda do violão.

 

Há um costume de dizer que um bom psicólogo não aconselha, mas auxilia a pessoa a pensar e a encontrar o seu próprio ponto de equilíbrio, ali onde as cordas do coração são afinadas no tom adequado da singularidade do sujeito. Quem dá um bom conselho é São Francisco de Assis: que Deus me dê coragem para mudar o que posso mudar, conformidade com aquilo que não posso mudar e, mais importante, sabedoria para diferenciar uma coisa da outra. A metáfora sugerida por Fritz Perls (Stevens, 1977) é bastante convincente a esse respeito: se um elefante quiser se realizar como uma águia voando por aí, provavelmente, encontrará muitos dessabores na sua caminhada, da mesma maneira que uma águia dificilmente será realizada ao querer ter a força e a pele dura de um elefante.

 

Existem muitos padrões de beleza no planeta terra, mas durante um certo tempo, o padrão da mulher jovem, magra e com aparência tida como formosa (seja lá o que isso queira dizer) dominou os corações das massas urbanas da civilização ocidentalizada contemporânea. Além disso, houve destaques preconceituosos para a beleza branca, tida como angelical, e a beleza preta, tida como provocante e sedutora. Rótulos e mais rótulos que dão uma ordem aparente a um universo rico de possibilidades, mas que também são laços apertados que oprimem a subjetividade, forçando caminhos e apertando a corda até estourá-la.

 

Na equação da beleza, tem uma variável que tem sido esquecida: o amor. Esse sentimento e vontade de estar perto de quem se ama torna o objeto amado algo muito bonito de ser contemplado. Entre a sustentação de um corpo humano de carne e osso e o olhar apaixonado, “a face do amor” cria uma áurea com poder de transformar tudo por tudo (Lambert, 1996). Mas os raios amorosos que adornam quem se ama, muitas vezes ficam ofuscados pela razão excessivamente apolínea, que pretende enclausurar o belo numa receita abstrata de medidas perfeitas, nem tão grandes, nem tão pequenas, nem tão largo, nem tão fino, nem tão branca, nem tão opaca, “nem nem”, algo que tenta se definir por um negativo jamais encontrado na precariedade da realidade do corpo material.

Foi essa tendência do olhar impregnado pelo amor geométrico que Lambert (1996) observou nos escritos de escritores consagrados ao longo do tempo:

 

E, se algumas romancistas sentiam-se satisfeitas em perpetuar em suas próprias obras a convenção patriarcal do retrato da heroína (visto que as mulheres, nós sabemos, com frequência internalizam o desabilitante inventário masculino das partes de seu próprio corpo). Cada vez mais, à medida que o tempo passava, outras – principalmente as maiores e mais criativas romancistas – não se sentiam. O destino final de suas heroínas podia ainda ser o casamento perfeito, mas este era definido em novos termos. As heroínas agora podiam pensar e agir por si mesmas; eram centros de consciência em seu próprio mundo, não recompensas para o bom desempenho do herói. (p. 77)  

 

O esforço em compreender a subjetividade da irmã de Camille (Burney, 1999)  é um caminho para acessar a interioridade de uma mulher e sua compreensão da dinâmica entre feiura e beleza. Nessa novela de 1796, a filha mais velha e mais bonita, chamada Eugênia, é acometida por um acidente e pela varíola, após a negligência do pai em relação à vacina, que na virada do século XVIII para o XIX era um tabu. Foi de maneira inesperada e por pessoas de fora da família que ela descobriu que sua deformação seria uma chaga muito maior do que ela pensava, carregando o peso de “ser feia”, como se pudesse ser culpada pela sua aparência estranha. O grande culpado não seria essa “convenção patriarcal do retrato de uma heroína”?  

 

Esse padrão hegemônico foi contrariado em alguns livros do século XIX, quando mulheres passaram a descrever uma outra forma do belo em seus livros, não mais através dessa obsessão técnica do corpo perfeito que nunca fala e só é observado. “As heroínas de beleza difícil” (Lambert, 1996) foram registradas em romances nos quais a protagonista poderia atrair a atenção do herói por uma simpatia qualquer, uma palavra bem enunciada, um sorriso desconcertante ou por uma ideia genial que vem de dentro da fêmea e são tão poderosos quando o diamante que se alcança no alto do encontro das coxas. Tornou-se facultativo a beleza clássica desejada por Apolo, pois o amor que deseja ardentemente rompe fronteiras e ilumina seu objeto com paixão.

 

Além dessa dica, Lambert (1996) me deu inspiração para perceber que a beleza clássica pode ser importante para tu, mulher, “Mas Tens Autonomia” quando ela te faltares. É claro que a aparência física está relacionada com a autoestima, pois o olhar do outro é uma das fontes de reconhecimento e admiração que tanto nos alimenta de afetos e sentimentos prazerosos. Porém, o amor transforma a aparência física através de processos de transferência bem documentados na psicanálise desde Freud. Se sentir bonito é uma função que envolve o amor que vem desde a infância com os cuidados maternos que projetam uma série de desejos e expectativas na criança. Quando falta o amor, o ódio é projetado na face do ser humano e uma repulsão instantânea faz o olhar do outro se contorcer para evitar a visão do feio. Nessas situações, é preciso por para fora o sentimento, tratar dessas feridas e reencontrar o equilíbrio amoroso esquecido. Um dos caminhos para isso é pela palavra que vem de dentro, pela fala que traz a catarse que limpa e pela poesia que nos dá autônima para viver.

 

Em alguns momentos difíceis, seja por luto, por doença ou por abandono e sujeição, as forças do indivíduo fraquejam beirando o precipício onde a última esperança sucumbe. Na trajetória de Ellen Zetzel Lambert, ela viveu alguns desses momentos. Perdeu a amorosa mãe na infância. Então ela analisou as suas fotos antes e depois dessa perda e percebeu como a bela criança manifestou uma feiura preocupante. Sobrevivendo a isso, ela participou do movimento feminista na década de 1960 e 1070 e lutou pela igualdade de condições para ambos os sexos. Viu sutiãs sendo queimados. Mas algo ali a incomodava: era um pecado falar de beleza feminina, pois isso estava ligado ao império machista dominador que tornava a mulher uma mercadoria barata colocada nos leilões dos concursos de beleza da sociedade capitalista. Mas será a beleza só isso? Parecia que com a crítica a esse processo de objetificação da mulher se eliminava uma característica fundamental do feminino: a capacidade de atrair aquele que se ama. Essa atração faz parte do jogo do amor e vem das flexas que são lançadas do arco de Eros. Mas se essa beleza física vem desprovida do amor, as relações ficam sujeitas à objetificação e subjugação ao princípio dominador do macho alfa.  

 

E quando a feminista é ameaçada em sua própria constituição física? Quando ela precisa retirar uma mama? A Ellen passou por esse processo e sentiu o medo de não mais atrair o seu companheiro como antes fazia. Já sem a beleza da juventude e agora com essa ausência do seio, que caracteriza uma parte importante do feminino, ela temeu que seu Cupido voasse para longe ao constatar a efemeridade da vida num corpo material. Mas ela teve autonomia! E a inspiração para enfrentar a lâmina que arranca o mal veio de uma das três narrativas conhecidas de mastectomia realizadas sem anestesia. Em setembro de 1811, Fanny Burney, uma escritora britânica que viveu uma parte da vida na França Napoleônica com seu marido, o Conde dÁrblay, foi submetida a uma cirurgia em sua própria casa. Ela faz um relato detalhado do ponto de vista da própria paciente, desde as consultas ao procedimento de extirpação, tudo registrado em uma carta concluída após 6 meses da cirurgia.(Burney, 1986)

 

Em determinado momento, o médico Larry pergunta: “qui me trienda ce sein?”. Ele era o seu serafim, mas naquele momento não passava do cirurgião que analisava a melhor forma de fazer a incisão naquela parte do corpo. Depois de um breve silencia, veio a resposta: “C'est moi, Monsiur” dos próprios lábios daquela que encontrava-se deitada na cama e levantou-se para retomar o controle da situação, afinal aquele seio pertencia primeira mente a ela. Óbvio que não foi permitido esse gesto de bravura da heroína. Mas no final da mastectomia, ela ainda teve fôlego para acalentar aos sete doutores presentes no quarto da cirurgia: “Ah Messieurs! que je vous plains!”.

 

A forma como a medicina olha para o corpo é derivada do mesmo padrão racionalista do patriarcado: olhar partes por partes, milimetricamente. Esse método, necessário para saber mais da matéria causa uma subtração subjetiva, pois a pessoa olhada torna-se indefesa e vulnerável, pois nunca é considerada em seu todo. Burney já se aproximava dos sessenta quando começou a maratona de exames a pedido de seu marido, que por sua vez se preocupava com suas dores constantes na região do peito. O marido abnegado conseguiu os melhores médicos do reino francês. Mas em todo o processo, ela foi alijada de muitas conversas e decisões, como se não fosse mais da responsabilidade dela. Foi infantilizada. Desesperadamente, tentou retomar o comando do seu corpo. Mas foi apenas com o retorno para a escrita que ela pode recuperar a sua força e recobrar toda a sua beleza de viver.

 

É imaginado que a detentora da beleza clássica numa sociedade dominada por homens ávidos pelas medidas perfeitas teria a glória e a felicidade garantida, pois colocaria todos aos seus pés. Primeiramente, a beleza está sempre ameaçada pelos acidentes da vida e pela própria finitude, da qual a velhice é o arauto. As mulheres consideradas bonitas passam por diversas situações de alienação fruto desse olhar do homem que calcula alguma medida perfeita de sua fantasia. Algumas percebem que seu troféu da beleza vem junto com uma maldição: a inveja de Afrofite. O mito da princesa Psiquê é um arquétipo do desenvolvimento feminino, que além da beleza, precisa da resiliência, perspicácia e coragem para encontrar seu lugar no Olimpo. Essa não é uma história de tragédia, como de Édipo Rei, que renunciou ao seu destino. Ela aceita o seu destino e cumpre com as tarefas que lhe são impostas. Ela é Psiquê, a deusa da alma.

 

“Num tempo ancestral, em que os deuses gregos eram vivido como uma realidade cotidiana e exemplar, existiu um Rei...” (Moraes, 2020)  

 

 

Bachelard, G. (2003). A formação do espírito científico - contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Contraponto.

Burney, F. (1986). Fanny Burney: selected letters and journals (J. Hemlow, Ed.). Oxford.

Burney, F. (1999). Camilla, or Picture of Youth (E. A. Bloom & L. D. Bloom, Eds.). Oxford.

Dejours, C., Dessors, D., & Desriaux, F. (1993). Por um trabalho, fator de equilíbrio. Revista de Administração de Empresas, 33(3), 98-104.

Lambert, E. Z. (1996). A face do amor: a questão da beleza e a libertação da mulher. Rosa dos Tempos.

Moraes, P. W. T. (2020). Psiquê e as cartas mágicas. DaIN.

Stevens, J. O. (1977). Isto é Gestalt. Summus Editorial.