Preparação para votar, Salvador-Ba (1/10/2022)

Lula X o Livro.

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

Professor Titular de Psicologia - UNEB

pwmoraes@uneb.br

Lula animal estilizada com livros_edited.jpg

Prezado Professor Antonio, amigo, mestre e doutor,

Andamos sem tempo para prosear. Mas no último telefonema conseguimos conversar mais de meia hora. A urgência do voto útil arrancou-lhe as últimas gotas de tempo e pude saborear a sua deliciosa presença argumentativa. Muitas emoções contra o fascismo retrógrado que tanto queremos derrotar o mais rápido possível. A nossa pretenciosa tentação é nos unir numa frente única e definitiva contra o mal, como se fosse possível arrancar o mal pela raiz ao desembainhar a espada eletrônica na ponta do dedo indicador que corta a cabeça da serpente ao teclar os números certos da urna eleitoral.

Mas lhe falei da minha simpatia pelo Candidato do Livro, por causa dessa minha mania antiquada de colocar ideias num papel, por essa aspiração à intelectualidade que já vem ao mundo quase natimorta por conta dessa obsessão quixotesca de pregar em tantos desertos brasileiros de leitores, por esses loucos que ousam idealizar um reino possível através de uma pena mágica que desenha sua armadura, sua espada e seu Rocinante imaginários a deslizar por uma próspera e mítica La Mancha. Sou desse tipo que ama os livros e conhece a dificuldade de escrever um, superando a exaustão de dar tanto murro em ponta de faca. Minha própria irmã, engenheira e tudo mais, por exemplo, me diz que livros impressos são coisas do passado que não dão dinheiro algum e, pelo visto, nem votos. Mesmo assim, de boca em boca, tenho vendido mais de 1000 livros, um bom começo num país em que se lê menos de 3 livros por ano por pessoa.

Num outro dia, estive em Mendonza, na Argentina. Uma cidade que tem um pouco mais de 115 mil habitantes. Numa rua periférica, pude contar mais de 4 livrarias. Presenciei pedestres fissuradamente lendo no trajeto para o trabalho. Isso mesmo, andando e lendo e seguindo a missão. E no centro da cidade, veja só, uma biblioteca do escritor mendoncino. Um sonho possível na terra irrigada pelas águas dos Andes. Mesmo com tanta leitura, o país hermano sofre uma grave crise econômica e os “utopitas” não se cansam de ir às ruas reivindicar um novo rumo para a nação. Seria a educação impulsionadora de tendências revolucionárias no povo? Não seria o livro um gesto subversivo de querer transformar o real apesar da realidade?

Já o Livro daqui passeia pelas ruas em busca de votos, mas o povo não lhe dá bola, como se não dissesse nada. Um povo oprimido não se comove com teorias e ideias. Uma barriga vazia não sustenta ideias abstratas. E Lula já encheu uma vez a barriga dos pobres, de tal forma, que eles até começaram a ir para a universidade. Quantos e quantos exemplos de gente simples que começou um negócio, uma profissão ou um sonho, depois de matar a fome! Era uma época em que surgia um milionário por dia no Brasil. Mas veio o pesadelo e começamos a perder um milionário por dia, ainda na gestão da companheira sinistramente golpeada. Depois do golpe, as coisas só pioraram, pois não foi mais possível defender os interesses nacionais e a nossa nação sangrou combalida com tantas mentiras que foram disseminadas, fechando milhares de empresas e de empregos.

Por conta de um julgamento falso, pagamos as contas até hoje. Mas há de haver um tribunal superior que nos atenda. Lá poderá existir a justiça divina que tanto tarda, mas não falha. Talvez, por linhas tortas, a pena divinal escreva que Lula deveria voltar ao poder para ajustar as contas deficitárias da justiça humana. Assim, se cumpriria plenamente o arquétipo do herói que morreu e renasceu para a vitória. Ele cumprirá a sua sina, afinal ele é uma ideia imortal, muito diferente das ideias mortais que são postas em frágeis folhas de papel, que com os anos se desfazem ao vento ou, numa simples chuva, se derretem para sempre. Foi emocionante orientar o trabalho que analisou o discurso de Lula e encontrou didaticamente as pérolas do arquétipo do Herói (MORAES; SILVIA, 2022), mas entre o homem e a ideia, existe o passado e as más línguas. Dar nova confiança para quem foi tão difamado é um gesto indigesto quando se trata de dar legitimidade para governar novamente o povo brasileiro.

Contudo, você está quase me convencendo, caro professor. Muitos amigos se aliaram ao senhor e até Caetano Veloso disse que o Livro pode ficar para depois. Será lindo derrotar o inimigo de maneira acachapante no primeiro turno. Além do mais, para uma elite branca que gosta de nordestino apenas como mão de obra barata, ver um deles, e ainda por cima ex-presidiário, subindo livremente a rampa do Alvorada, para mim, será um motivo de festejo também. Quantas personalidades públicas, aparentemente puras e íntegras, com o passar do tempo se revelam verdadeiros corruptos, genocidas e assassinos? Onde tem pureza nessa terra velha e batida é um sinal de perigo, pois a divindade imaculada não mora no chão sujo, mas no alto céu inatingível pela pobre natureza humana corruptível. Será didático mostrar que um ex-presidiário pode ser reintegrado à sociedade com alta pompa. Será a reedição de um case de sucesso que já ocorreu no passado, por exemplo, na África do Sul com Mandela.

Já fiz até musiquinha para amanhã: se chama “Araxá”, lugar onde primeiro se vê o sol:

Alguma coisa aconteceu

Nada era o que se pareceu

Alguma coisa arranha o peito

Ressentimentos do que se arrependeu

Hoje é dia de curar a dor

Braços abertos venha me abraçar

Oh mar a montanha quando verás

Araxá, vem ver o sol

Achará um novo dia

Quando a nuvem o vento soprar

Não restará nenhuma mentira

Lá vem o sol iluminar

Com a ciência venha se curar.

Começo a me sentir como uma criança desejosa de que o aniversário chegue logo, para poder abrir todos os presentes. Não posso negar que estou tentado a ceder ao voto útil, um conceito intrigante de anulação de alternativas. Sempre haverá essa pressão com o dedo em riste nos dizendo que não há outro caminho possível e que é necessário evitar o mal maior. Não estou confortável com essa solução precária. Ninguém está confortável com coisa alguma e as Epistemologias do Norte (SANTOS, 2022) já não enganam a resistência do Sul. Muita certeza pode ser sinal de ilusão e nem sempre o “sempre”, o “único” e o “só esse” são as melhores opões, pois as palavras podem trair e as ações serem a negação do verbo. Um gesto vale mais do que mil palavras? Quanto vale uma palavra? E um livro? E quando o Livro também se fundamenta em ações de sua trajetória e prática, aumenta o seu valor? Ter o exemplo e a fala juntos é uma rara combinação que torna uma pessoa coerente e um livro uma obra prima. Fazer o que se diz é uma disciplina que molda o caráter por toda a vida. Uma coisa é escrever um livro, outra é viver o que está escrito e outra, ainda melhor, é viver vivendo e escrevendo.

O Livro que luta em oposição à tendência de manter o país na condição de vassalagem colonial projeta um caminho claro. As nações que prosperam (ACEMOGLU; ROBINSON, 2012) fortalecem suas instituições num ciclo virtuoso, enquanto que as nações que fracassam, apodrecem suas instituições num ciclo vicioso. Nas primeiras, tem escola de qualidade e universidades que empoderam o cidadão. Isso nos apresenta a seguinte dúvida: são os países ricos que têm dinheiro para bancar boa educação ou eles são ricos porque bancam a boa educação? Talvez as duas coisas aconteçam simultaneamente e a ideia de ciclo virtuoso é um bom modelo explicativo. Aí meu coração começa a bater forte, pois o livro é parte fundamental da educação. Ainda quero conhecer uma cidade do Ceará chamada Sobral, cujos alunos da rede pública de ensino tiveram desempenho em leitura acima da média dos países ricos, em 2019. O que será que está acontecendo por lá? Será que seus cidadãos também andam com livros nas mãos, freneticamente, lendo-os pela cidade, como vi em Mendonza? Peço licença para desfrutar um pouco mais do seu tempo de leitor tão requisitado, pois somente abrindo um parágrafo extra para realçar a importância da leitura dos livros.

Quando estive visitando a Alemanha em 2017, ano em que celebrava-se os 500 anos de Reforma Protestante, tive a oportunidade de visitar alguns marcos da Reforma, como o castelo de Wartburg, no qual encontra-se a escrivaninha onde Lutero estudou para traduzir a Bíblia, e a igreja de Wittemberg, onde ele pregou suas 95 teses que refutaram alguns dogmas da igreja Católica Apostólica Romana. Mas de que adianta traduzir se a maior parte da população era analfabeta? Quem iria ler as teses fixadas numa parede vulnerável à ação do tempo que dissolve os papéis? Então, a Reforma foi algo mais do que a mera impressão e divulgação de um livro traduzido, foi todo um processo de educar as pessoas para aprenderem a ler e atender a um chamado do quixotesco monge, que se achava capaz de derrotar Roma. Imagino uma pregação do pastor, que também foi fundamental na criação do alemão como uma língua unificada: "Não quero que vocês acreditem no que escrevo, leiam com seus próprios olhos e tirem suas próprias conclusões para ver que eu estou certo". Se o dispositivo luterano funcionou para desarmar as fabulações religiosas romanas, por que não haveria de funcionar com os documentos de Estado? Mais uma vez aquela estorinha do ciclo virtuoso aparecendo novamente: um avanço social em um campo leva ao avanço em outras dimensões pela simples aplicação de conhecimentos adquiridos ou tecnologias adaptadas de maneira criativa e inovadora.

Mas a razão do livro não é tudo e, às vezes, nos cega com a lança da certeza. Estou vivendo isso com a divulgação do livro “Óbitos & Votos” (MORAES, 2022). Apresentei o livro para uma aluna minha que se revela persistente no bolsonarismo e ela simplesmente disse que estatística não era ciência e que eu parti de pressupostos equivocados. Tentei demonstrar como me dediquei um ano inteiro estudando os dados populacionais do Ministério da Saúde e do TRE, fazendo, cuidadosamente, 26 gráficos, 15 tabelas e 15 figuras, mas nada disso serviu de argumento, uma vez que eu só tinha poucos segundos de algum argumento “lacrador” cuja habilidade de enunciação ainda não possuo. Precisava de algo pirotécnico que abrisse a cabeça fechada de uma jovem entrincheirada em um castelo de teorias da conspiração, hoje disseminadas sistematicamente por canais de desinformação. A minha razão ficou possessa quando se percebeu barrada na muralha desse frágil castelo de areia, que com um simples lufar do vento ou com uma marola na beira da praia se desfaz. Não vou mentir que cheguei a armar o aríete para arrombar o portão desse simulacro de castelo que aprisiona o cérebro dela, usando toda a minha força acadêmica, afinal de contas EU estava com a RAZÃO. Para minha sorte, fui salvo por uma força superior, o yoga. Sim, respirei e respirei, e coloquei a razão no lugar dela. Olha que desproporção: um doutor querer apresentar argumentos de autoridade para uma graduanda e vencer uma disputa de ideias através de insígnias dignas dos doutos padres romanos! Não, não fiz isso, fui luterano: “não quero que você acredite no que eu estou dizendo, leia meu livro e examine para ver que estou certo!”

Tenho que ser honesto com o leitor e narrar a outra versão desse embate, pois estou sendo luterano apenas agora, depois do fato ocorrido. Na verdade, fiquei em silêncio olhando fixamente nos olhos da aluna que falava descontroladamente, como nos debates acalorados em que os candidatos não suportam ouvir a tréplica até o fim. Minha diretora ficou horrorizada ao ouvir os gritos, mas ela confiava que minha calma e silêncio venceriam a batalha dantesca. E assim aconteceu quando, no vazio do verbo que apenas tentava se projetar de sua boca e não encontrava anteparo algum para reverberar teorias inverídicas nem tábua rasa para inscrever os signos de alguma certeza insustentável, a querida estudante bolsomian se deparou com o próprio espelho e, no convulsar do fim da munição verborrágica, uma lágrima da minha vitória escorreu sobre o seu semblante. Estendi a mão num gesto de paz e a convidei para praticar yoga junto com um grupo que acompanho no meu departamento, onde trabalho. Após quarenta minutos de puro zen, éramos outras pessoas e, com a razão moderada, continuamos o velho embate sob novas condições de civilidade.

O poder do livro, às vezes, faz isso com a gente: nos enche de razão. Por isso, entendo o excesso do Candidato Livro sob Lula: ele está com a razão, mas não está usando a razão de maneira moderada e luterana. O Livro está precisando de yoga para contrabalancear o poder da razão. No Livro estão as teses do desenvolvimento econômico e social, os exemplos e os mártires, mas não é uma receita de bolo e não pode ser utilizado como uma arma que é arremessada na cabeça das pessoas. Basta deixá-lo disponível, onde os indivíduos possam examiná-lo, para ver com os próprios olhos o que está certo. Mas o Livro tem pressa e queima as etapas. Enquanto a razão do Livro voa veloz tentando impor sua luz radiante, o Brasil ainda não consegue ler na velocidade adequada para compreender as teses do desenvolvimento e o brasileiro ainda não domina a arte da leitura. Faltou sincronicidade, ou como diria Garrincha nos vestiários antes da partida de futebol: “Doutor, o senhor combinou a estratégia com o adversário?”

Mas tenha certeza, senhor irmão Livro, continuo te amando e desejando que um dia você suba no Alvorada também, com todo o requinte que você merece. Vá se conformando com o fato de que a prórpria Reforma Protestante não se fez apenas em um dia ou numa eleição, mas ela foi plantada com um grande livro e alimentada durante séculos de educação. O próprio Lutero penou uma vida inteira para concretizar o seu sonho através da tradução do grande livro da Bíblia. A reforma verdadeira é no dia a dia, formando leitores críticos. Eu mesmo me sinto nessa solidão dos escritores que são pouco lidos. Mas outro dia fiquei em segundo lugar no prêmio nacional OFF-FLIP FICÇÃO 2022 e as minhas esperanças se renovaram de um dia ser lido pela multidão brasileira e ficar, finalmente, em primeiro lugar. É bom passar por esse período de incompreensão e isolamento, pois vejo o trabalho a ser feito em educação popular para divulgar o poder dos livros em formalizarem as ideias e projetarem um futuro promissor. Caro Gomes (2020), você não perdeu, você venceu, pois plantou a semente do livro que dará os mais deliciosos frutos na mente dos brasileiros. Acho que agora estou pronto para votar! Viva Lula livre e viva o Ciro Livro. Não entenderam? Eu li o livro de Ciro, leia você também e poderá examinar quem está certo!  

 

Referências:

 

ACEMOGLU, D.; ROBINSON, J. A. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

GOMES, C. Projeto nacional: o dever da esperança. São Paulo: LeYa, 2020.

MORAES, P. W. T. Óbitos e votos: um estudo didático com os dados da COVID-19 no Brasil. Salvador: DaIN 2022.

MORAES, P. W. T.; SILVIA, S. Y. D. D. Análise do Discurso de Lula: o Arquétipo do Herói Presente numa Ideia. Psicologia, Ciência e Profissão, No prelo, 2022.

 

SANTOS, B. D. S. O fim do império cognitivo: a afirmação das epistemologias do Sul. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.