Debate no Colégio Oficina, Salvador-Ba (13/06/2022)

Um Futuro Diferente

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

Professor Titular de Psicologia - UNEB

pwmoraes@uneb.br

"Ao acabarem todos só resta ao homem (estará equipado?) a dificílima dangerossíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração, experimentar, colonizar, civilizar, humanizar, o homem, descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas, a perene, insuspeitada alegria de conviver." (O HOMEM; AS VIAGENS) (ANDRADE, 2012)

A generatividade é um conceito estudado por Erickson (1950) que trata da preocupação humana com o bem-estar da sociedade e das futuras gerações. Uma das crises do adulto é ampliar o cuidado com seu círculo mais íntimo para a sociedade mais ampla e deixar algum legado que possa assegurar o desenvolvimento das futuras gerações.  Lendo uma carta de jovens que têm em torno de 15 anos observei essa preocupação com “o mundo que herdarão” e um sentimento de tristeza diante da possibilidade do começo de guerras entre países que se entendem como civilizados. O surgimento da crise da generatividade em jovens pode ser uma antecipação de uma preocupação que antes era primordialmente vivida na fase adulta. Talvez o jovem tenha mais acesso às informações e se preocupa com as consequências de decisões que são tomadas por pessoas de idade já avançada. Um velho ditado diz que uma guerra é a decisão de velhos que conhecem bem um ao outro e que colocam jovens que não se conhecem para se matarem. Nada mais apropriado que o jovem se interesse por esse assunto, uma vez que pode evitar as consequências mortais e desastrosas.

“O não cumprimento de acordos civilizatórios” é um desafio para a compreensão de qualquer pessoa que se posiciona no lugar da racionalidade, pois todos perdem quando tratados são rompidos e alianças são quebradas. Nem sempre a razão sai vencedora nas mesas de negociação dos “velhos conhecidos” que decidem pela guerra. Por viver numa época tenebrosa, Freud (1997) duvidou da capacidade da razão em vencer os instintos mais primitivos da natureza humana e escreveu o texto “O mal-estar na civilização”. Nesse texto, ele levantou a hipótese de existir um instinto de morte que explica o comportamento irracional que leva à destruição. Ele viveu até o ano anterior à eclosão da Segunda Guerra Mundial e observando a perseguição aos Judeus, fugiu para a Inglaterra e sua última década de vida foi bastante pessimista.

 

A capacidade humana de matar cresceu enormemente com as tecnologias e é de se perguntar se a capacidade ética se desenvolveu na mesma velocidade que o aperfeiçoamento das armas. Esse pessimismo de que o ser humano pode aniquilar todo o planeta pesa sobre os ombros de toda a humanidade. Diante disso, é desafiador demonstrar algum otimismo que não acarrete a positividade tóxica que fecha os olhos para os acontecimentos banais que são noticiados diariamente. Entretanto, assim como trouxe um contumaz pessimista é preciso trazer um otimista para contrabalancear os lados desse debate: Para Pinker (2011), a violência tem reduzido e o aumento da expectativa de vida é um indicador importante para se levar em consideração. O motivo principal para o seu otimismo é a análise dos dados sobre o assunto. O problema é que tal análise é demorada e não tem potencial de sair no noticiário, pois não é um assunto apelativo. A cognição é muito mais atenta a assuntos dramáticos do que análises estatísticas. Por isso, é muito difícil convencer um pessimista convencido pela exposição diária a informações negativas.

 

Um dos argumentos empregados por esse psicólogo de Harvard Steven Pinker é derivado do dilema dos prisioneiros que está presente na teoria dos jogos. Em jogos que se repetem, há uma tendência à cooperação entre os jogadores, pois a retaliação no presente pode significar uma revange na partida seguinte e a colaboração é o único resultado que pode assegurar recompensas duradouras para todos os lados envolvidos. Alguns economistas laureados com o prêmio Nobel se debruçaram sobre esse assunto e tentaram inclusive incluir alguma irracionalidade no modelo explicativo do dilema do prisioneiro. Uma das soluções são os acordos mútuos que otimizam os ganhos recíprocos. Portanto, fazendo a analogia dos prisioneiros com aqueles "velhos conhecidos" que decidem pela guerra, muitas vezes se decidiu pela paz e os negócios prosperaram para ambas as partes. Observando o desenvolvimento atingido por uma economia que dialoga a nível global, a paz é um negócio muito mais rentável do que a guerra.    

Mas para que os velhos prisioneiros mantenham os acordos que sustentam a paz, os cidadãos também precisam desenvolver a compreensão de que é inaceitável escolher a guerra. Além disso, cada velho razinza que habita no coração de cada ser humano deve dar voz ao jovem que não quer se matar precocemente numa guerra inútil. Construir um futuro diferente pressupõe o investimento do ser humano no desenvolvimento da ética e no estudo da vida que vale a pena ser vivida. Como tornar o ser humano capaz de conhecer a si mesmo e dominar suas tendências destrutivas? Não basta cruzar os braços e esperar que a sociedade melhore por si mesma e as pessoas passem a cuidar melhor de si próprias. É preciso o investimento em atividades que promovam a empatia, solidariedade, o perdão, a gratidão e a felicidade. Isso vem sendo estudado (SELIGMAN; CSIKSZENTMIHALYI, 2000) e quem sabe um dia o poeta Drummond possa contemplar, de onde quer que ele esteja, o homem colonizando a si mesmo.

Referências

ANDRADE, C. D. D. As impurezas do branco. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

ERIKSON, E. Childhood and society. New York: Norton & Company, 1950.

 

FREUD, S. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997. (Obras Completas de Freud.

 

SELIGMAN, M. E. P.; CSIKSZENTMIHALYI, M. Positive psychology: an introduction. American Psychologist, 55, n. 1, p. 5-14, 2000.

 

STEVEN, P. The better angels of our nature: why violence has declined. London: Penguin Books, 2011.